25 de agosto de 2008

A conta PIB versus receita não fecha

Não é de hoje que eu leio o blog do Clemente Nóbrega - e sempre comento algumas coisas por aqui.
Desta vez, porém, ele se superou.
Mesmo.

Para entender o contexto, transcrevo um trecho de um artigo publicado no Valor Econômico de 07/08/2008:
Com o Toyotismo globalizado superando o fordismo nacionalizado, a grande empresa passou a funcionar em rede para melhor aproveitar as vantagens comparativas prevalecentes no interior da economia-mundo, cada vez mais a operar sem estoques por decorrência da adoção do sistema just in time. A queda verificada nos custos de produção ocorreu simultaneamente à configuração de poucas e grandes empresas a dominar qualquer setor de atividade econômica e a depender do transporte intrafirmas, com custos rebaixados de energia e da modernização logística e informacional do processo de produção e distribuição. O vertiginoso aumento do poder econômico foi acompanhado por crescente exigência de apequenamento do poder do Estado e, em seqüência, dos trabalhadores. Assim, a contenção dos estoques reguladores, a privatização e a liberação comercial, financeira, tecnológica e produtiva também passaram pela desregulamentação dos mercados de trabalho, com vigência ampliada do desemprego e dos salários reais rebaixados pela desconexão da inflação passada e da produtividade física.


Paradoxalmente, a contra-reforma neoliberal das últimas três décadas conformou um projeto de globalização protagonizada por não mais de 500 grandes corporações transnacionais. Somente a soma do faturamento das três maiores empresas mundiais equivale ao PIB brasileiro, a 10ª economia do mundo. No Brasil, por exemplo, a Petrobras já é maior que o PIB argentino.
Sem a regulação pública da competição intercapitalista, a governança mundial estruturada no imediato Pós-Guerra tornou-se disfuncional, especialmente quando a reprodução universal do modelo de crescimento da "economia do ter" parece encontrar os limites da sustentabilidade ambiental.

Com a monopolização das estruturas de produção e distribuição, que torna as poucas corporações transnacionais cada vez maiores do que nações, as tradicionais agências multilaterais do sistema ONU perderam capacidade de garantir a governança mundial. Na decadência da economia americana, assiste-se ao deslocamento do centro dinâmico mundial para a Ásia, da mesma forma que - guardada a devida proporção - a Inglaterra passou o bastão no ingresso do Século XX aos EUA.

Nos dias de hoje, assim como na decadência inglesa, o mundo ficou refém de muito poucos, que não desejam ver contrariado seus interesses privados. Depois de quase cinco anos de ação dos EUA no Iraque, o preço do barril de petróleo encontra-se bem acima dos cem dólares, mais de três vezes o valor do início do Século XXI, o que se reflete direta e indiretamente nos custos de produção da grande empresa em rede na economia-mundo.
Da mesma forma, a estrutura de produção e distribuição segue cada vez mais monopolizada, permitindo a manipulação dos preços internacionais (commoditizados) justamente no momento de expansão das economias não desenvolvidas e da condição comercial externa mais aberta e sem estoque regulador. Tudo isso associado à instabilidade do sistema monetário internacional que, após a desordem da década de 1970, registra até hoje uma crise financeira a cada dois anos, como a atual vivida pelos países centrais.
Pois bem.......Quem lê o texto do Márcio Pochmann (professor licenciado do Instituto de Economia (IE) e do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (CESIT) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e presidente do Ipea), num primeiro momento, pode impressionar-se.
Palavreado sofisticado, vindo de um cara que tem um vasto currículo acadêmico..... né ?!

Mais ou menos.......
O texto, na íntegra, está aqui (para assinantes).

A partir deste texto, o Clemente Nóbrega afirma o seguinte:
Digo isso tudo por causa de um artigo de Marcio Pochmann no VALOR ECONÔMICO 07 de agosto. Ele diz coisas assim:
-A soma dos faturamentos das três maiores empresas do mundo equivale ao PIB brasileiro (ou seja as três maiores empresas do mundo equivalem a um Brasil);
-Umas poucas corporações transnacionais estão ficando cada vez maiores que muitas nações..
- A receita da Petrobrás é maior que o PIB da Argentina;

Será? Se você olhar os PIBs (produto interno bruto) dos 100 maiores países do mundo, e comparar com as receitas das maiores empresas do mundo,vai ser tentado a dizer que,realmente, das 100 maiores "economias" do mundo, 51 são empresas, não países!!
A conclusão à qual Pochmann quer nos levar é a seguinte:é preciso pôr um freio ao poder das grandes empresas porque elas estão mandando mais que os países. Elas impõe suas regras deixando-os reféns.
Será que Pochmann tem razão?

Não,não tem. Seus números para PIBs de países e receitas de empresas estão certos, mas o que ele diz é mais que uma afirmação errada, é uma afirmação estúpida.
Mais adiante, ele segue no mesmo assunto:
Você calcula o PIB de um país somando o que chamam de "valores adicionados" por todas as atividades econômicas realizadas no país.
Valor adicionado é a receita gerada pelas vendas, menos o custo para produzir o que foi vendido. Faturamento de empresa é só receita de vendas. Pochmann está comparando banana com laranja. Sr.Márcio Pochmann,vá ao quadro-negro e escreva mil vezes:
"PIB de países é receita menos custo, faturamento de empresas é só receita". (Era assim que a professora fazia na minha época quando um aluno falava besteira).
De novo: "PIB é receita menos custos,faturamento é.......".[complete nos pontinhos].

Um exemplo:automóveis.

A Gerdau vende fios de aços para a Pirelli fazer pneus.A Pirelli vende pneus para a Ford e a Ford vende carros para os consumidores. Se o pessoal do IBGE,que faz o cálculo do PIB do Brasil, adicionasse as receitas da Gerdau, da Pirelli e da Ford, o dinheiro correspondente ao aço seria computado três vezes (o aço seria contado triplamente) porque cada empresa- Gerdau,Pirelli e Ford- embute o custo do aço no preço que cobra pelo que vende (ou seja,embute o preço do aço na sua receita de vendas).
Como é que se calcula o PIB ?

O pessoal do IBGE considera que a venda do aço aumenta o valor adicionado à Gerdau, pois a empresa existe para vender aço mesmo. Mas, eles SUBTRAEM o custo do aço da receita de vendas da Pirelli, porque o aço é um custo para a Pirelli .Das vendas da Ford eles tiram o custo dos pneus e de outros insumos que ela usa,e assim por diante..
Não é simples? É banal, mas Pochmann não sabe disso.
A receita de vendas da GM é enorme, mas o valor adicionado por ela, hoje, está negativo. A GM está destrunido valor,não criando. Pelo "critério Pochmann" ela seria um "país" muito poderoso, maior que a Dinamarca.Pelo critério certo, a Dinamarca é mais de três vezes maior que ela.
Em 2000,a GM faturou R$185 bilhões,mas só teve 42bilhões de valor adicionado.A Royal Dutch Shell faturou 149 bilhões,mas só adicionou US$36 bilhões em valor.
Se você fizer a conta direito, vai ver que existe um número muitíssimo menor de empresas que podem ser comparadas a países [pelo critério certo ,banana com banana, não segundo o "critério Pochmann" ,banana com laranja].
O Wal Mart –a empresa de maior receita do mundo-está entre o Chile e o Paquistão. Podemos admirar muito esses países,mas alguém diria que Chile e Paquistão são super-potências econômicas? Receita é uma coisa,valor adicionado outra.
Pela filosofia que norteia o "critério Pochmann", se você tem 10 pés de alface e eu tenho 5 milhões de dólares,você é mais rico do que eu,porque você tem um "patrimônio" de 10 e eu de 5.
Mesmo nos (poucos) casos em que,usando o critério certo, empresas poderiam ser consideradas maiores que países, é mesmo verdade que os países são dominados, esmagados,controlados,por essas grandes e poderosas corporações egoístas?
Também não é verdade. É falso.
Pois é.
O cara é presidente do IPEA, e, ainda assim, escreve essa bobagem fenomenal !

Sob tal perspectiva, James Hunter até que me parece menos cretino.......
Essa maldita ideologia esquerdopata leva pelo ralo até o mais sofisticado e pernóstico argumento dos "intelectuais" brasileiros....

Mais tarde comento esta matéria da Veja, que trouxe um retrato assustador do perfil esquerdopata dos professores que deveriam educar as crianças e jovens brasileiros - mas, ao invés disso, fazem lavagem cerebral ideológica.
Com esta matéria, não tenho mais nenhum dúvida sobre uma questão com a qual me deparo sempre que dou aula no 1.o ano da graduação - volto ao tema posteriormente....