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7 de maio de 2013

ENADE 2012 (1)

Hoje, finalmente, consegui ler a prova de Administração do ENADE 2012.

A prova, no geral, está entre ruim e péssima. O lado bom é que a anterior, de 2009, estava entre péssima e medonha. Portanto, houve uma melhora.
Para quem quiser verificar a prova, pode fazer o download AQUI. O gabarito pode ser baixado AQUI

Como eu havia feito em 2009, pretendo fazer uma análise mais detalhada das questões de marketing e TGA/Administração geral.

Em breve.

Por ora, todavia, quero ressaltar o que o MEC/Inep chama de "formação geral".

São 8 questões de múltipla escolha e 2 dissertativas, que, somadas, equivalem a 25% da nota geral do ENADE.

A questão 01 não passa de interpretação de texto. Só.
Basta saber interpretar as tabelas com proporção de leitores (de livros) no período 2007-2011 para escolher uma das alternativas.
A questão 02 também: pura interpretação de texto, assim como a 03.
Temas babacas, sem nenhuma relevância.

Na questão 04, porém, a coisa muda: a partir de um trecho curto de um documento do MEC sobre ética e cidadania, o aluno tem que avaliar 3 proposições, quais sejam:

I. Toda pessoa tem direito ao respeito de seus semelhantes, a uma vida digna, a oportunidades de realizar seus projetos, mesmo que esteja cumprindo pena de privação de liberdade, por ter cometido delito criminal, com trâmite transitado e julgado.
II. Sem o estabelecimento de regras de conduta, não se constrói uma sociedade democrática, pluralista por definição, e não se conta com referenciais para se instaurar a cidadania como valor.
III. Segundo o princípio da dignidade humana, que é contrário ao preconceito, toda e qualquer pessoa é digna e merecedora de respeito, não importando, portanto, sexo, idade, cultura, raça, religião, classe social, grau de instrução e orientação sexual.

A pegadinha: o trecho do documento do MEC remete aos "Direitos Humanos" - e a proposição I trata de presidiários ("mesmo que esteja cumprindo pena de privação de liberdade, por ter cometido delito criminal").
Se o sujeito cometeu um crime e está preso por isso, que projetos ele vai "realizar"?
Só se o projeto de vida do sujeito é ser preso! 

Essas perguntinhas cretinas que o MEC adora…...

A questão 05 é daquelas de arrepiar os cabelos do cu: pede-se o aluno que aponte uma relação causa-efeito entre globalização, desregulação de mercados financeiros e políticas neoliberais.
Evidentemente essa josta foi redigida por um desses desavisados que o PT alojou no MEC e que acredita que FHC, por exemplo, enquadra-se no perfil de "neoliberal".
Bobagem.
Como a questão toda, aliás.

A questão 06 trata de financiamento público de estudos nas áreas de "ciências básicas" (termo usado na pergunta). Questãozinha sem pé nem cabeça, que pretende que o aluno faça uma simplificação de um tema bem mais complexo - e provavelmente o aluno de 1o ano nem tem embasamento para tratar disso.

Aliás, o critério (ou ausência de um) do MEC é ridículo: alunos do 1o ano não tiveram, ainda, contato com 90% ou mais do que se pergunta nessa prova - não deveriam, evidentemente, ser obrigados a fazê-la.

As questões dissertativas tratam de "sustentabilidade" (questão discursiva 1) e violência (questão discursiva 2) - em ambas, novamente, pedem-se análises e propostas sem oferecer dados suficientes para sustentar argumentos minimamente razoáveis.

Em suma: um lixo.

Aliás, já adiantando uma questão da parte que compete efetivamente a um graduando em Administração, pulo para a questão 30.

Trata-se de uma questão sobre a Matriz BCG, assunto bastante básico de Marketing.

E qual o problema/falha com a questão?

Ela faz com que o aluno perca tempo desnecessariamente.
Porque: apresenta-se um texto de 3 parágrafos (retirado de uma matéria da Exame), e na sequência mostra-se a figura que sintetiza a Matriz BCG.
A seguir, uma suposição, e 5 alternativas.
A única alternativa sensata é a "A", mas a questão certamente obriga alunos possivelmente nervosos a ler um texto inútil e quiçá buscar nele a explicação para assinalar a alternativa correta.

Bobagem. Basta identificar que o produto VAI SER LANÇADO para enquadrá-lo como ponto de interrogação logo de cara.
Só isso. 

Mais uma vez, portanto, o graduando é obrigado a passar por uma provinha RIDÍCULA, mal-feita, incapaz de avaliar a capacidade do formando, incapaz de lidar com questões realmente importantes.
A educação no Brasil está uma desgraça.

E tende a piorar.

PS - Para quem se interessa pelo assunto EDUCAÇÃO, sugiro fortemente a leitura deste artigo AQUI. Trata-se de uma análise extremamente bem estruturada sobre essa praga que ganhou o apelido de "preconceito linguístico", um nome inventado por gente que quer manter os índices de analfabetismo funcional alarmantemente altos no Brasil do jeito que estão; pessoas que infelizmente estão em postos-chave da educação no país, mas que usam uma terminologia rasa e ignorante para tentar minimizar a importância da educação - em tese, isso seria uma contradição, mas no Brasil….

 

21 de agosto de 2012

Tirar as sacolas dos supermercados foi um ERRO ABSURDO

Li, agorinha, esta matéria, que reproduzo na íntegra (publicada originalmente AQUI) e, como de costume, faço grifos:
O vice-presidente de Relações Corporativas do Pão de Açúcar, Hugo Bethlem, classificou como “um erro absurdo” a decisão dos supermercados paulistas de parar de fornecer sacolas plásticas nos caixas. Na avaliação do executivo, a ideia de chamar a atenção do consumidor para o descarte adequado das sacolinhas é importante, entretanto, deveria ter sido melhor estruturada para promover uma mudança de hábito da população. “Quando você quer mudar hábitos de consumo todos os agentes da sociedade precisam sentar e discutir metas de longo prazo”, disse nesta terça-feira (21), durante o Encontro de Sustentabilidade promovido pelo Grupo de Líderes Empresariais (Lide), em São Paulo.
Hugo Bethlem acredita que a forma como a Associação Paulista de Supermercados (Apas) conduziu o tema foi errada, pois acabou gerando uma agenda negativa para o setor. “Queremos sair dessa agenda negativa, colocando o consumidor a favor do meio ambiente”, afirmou.
No mesmo sentido, o presidente do Lide, o empresário João Dória Jr, lamentou a execução da proposta do fim das sacolas plásticas. “Às vezes uma boa intenção que não é completa representa um passo atrás”, avaliou.
A distribuição de sacolas plásticas gratuitamente voltou a ocorrer no Estado de São Paulo no fim de junho, quando a juíza Cynthia Torres Cristófaro, da 1ª Vara Central da capital paulista, determinou a medida, válida a partir do dia 28 de junho e em vigor desde então.
Segundo o executivo do Pão de Açúcar, o grupo está fazendo sacolas sem o nome das redes de supermercados e com mensagens de conscientização do consumo, chamando atenção para o descarte adequado. “As pessoas precisam entender a importância do fim da sacolinha. Vamos oferecer alternativas para isso.”
(Por Último Segundo) varejo, núcleo de estudos do varejo, núcleo de estudos e negócios do varejo
Eu cansei de escrever, neste blog, sobre o caso (basta ver a tag APAS).
Em todas as oportunidades, eu escrevi exatamente isso: a proposta de NÃO oferecer sacolinhas para os clientes é BURRA, HIPÓCRITA e CONTRAPRODUCENTE, sob todos os aspectos possíveis e imaginários.

A medida foi reprovada claramente pelos clientes - e a APAS, com sua visão monopolista, ainda assim segue achando que tem que banir as sacolas, sim. A APAS é tão burra que não percebeu que, se continuar insistindo nessa campanha idiota, vai queimar a imagem de muitos de seus membros (os supermercados).

22 de junho de 2012

Por que a APAS é tão burra?

Acompanhando, nesta semana, o desenrolar da questão das sacolinhas plásticas nos supermercados de SP (já trato disso), hoje minha grande dúvida é a seguinte: POR QUE A ASSOCIAÇÃO PAULISTA DE SUPERMERCADOS É TÃO BURRA?

Burra mesmo. Não há outra palavra possível.

Primeiro, conforme já mostrei AQUI, fica bastante claro que a população não aprovou a (ridícula e hipócrita) idéia de banir as sacolinhas dos supermercados.

Agora, o Ministério Público concluiu que a ação é ilegal também, na medida em que ela impõe "só ao consumidor o ônus de ter de arcar com a proteção do ambiente, já que terá de pagar pela compra de sacolas reutilizáveis".
Trocando em miúdos, a APAS quer que os supermercados façam propaganda enganosa dizendo-se defensores do meio ambiente enquanto o consumidor é quem paga a conta - por algo que ele NÃO aprova.

Finalmente (e agora sim o leitor vai entender porque não existe outra palavra para qualificar a APAS senão "burra"), surge esta idéia brilhante de "vales" para as sacolas retornáveis....

Por que complicar tanto a vida do cliente, APAS?
Por que não voltar ao modelo anterior, com as sacolinhas gratuitas ?
Por que a APAS odeia tanto o cliente?
Transcrevo, a seguir, os trechos mais relevantes das recentes notícias (a íntegra está AQUI).
Os supermercados vão propor que clientes que tiverem que comprar sacolas recebam um vale no mesmo valor da embalagem, que poderá ser descontado numa próxima compra. A medida procura compensar o consumidor pelo fim das sacolinhas plásticas gratuitas. As sacolas vão custar de R$ 0,10 a R$ 0,20, valor que será reembolsado.
As medidas vêm em resposta ao Conselho Superior do Ministério Público, que na quarta-feira concluiu que os lojistas deveriam criar condições para compensar os clientes pela perda do benefício de receber sacolinhas gratuitas.

Na quarta-feira, o Conselho Superior do Ministério Público não aceitou o TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) assinado em fevereiro entre supemercados, Procon-SP e Ministério Público que previa o banimento das sacolas plásticas dos estabelecimentos.

Para o conselho, o TAC não garantia o "equilíbrio entre fornecedor e consumidor, no mercado de consumo, impondo só ao consumidor o ônus de ter de arcar com a proteção do ambiente, já que terá de pagar pela compra de sacolas reutilizáveis".

Segundo o documento de recusa, nenhum ônus foi atribuido ao fornecedor, "a quem, muito pelo contrário, tem se utilizado da propaganda de protetor do ambiente diante da população".

OPÇÃO ÀS SACOLINHAS
Em maio de 2011, supermercados e governo assinaram acordo para reduzir a distribuição de sacolas. Desde abril, 1,1 milhão deixou de ser distribuído.

"Caso a proposta não seja considerada adequada, os supermercados deverão oferecer uma alternativa não onerosa ao consumidor para o acondicionamento das compras", disse, em nota, o Procon-SP.

Procon-SP e Ministério Público devem analisar nesta sexta-feira as medidas apresentadas pela Apas.
Os supermercados que tiverem o mínimo de visão de mercado vão deixar a APAS falando sozinha.
Rapidinho.

[ATUALIZAÇÃO de 25/06/2012]
O supermercados devem voltar a distribuir de graça sacolas plásticas aos consumidores no Estado de São Paulo.
Decisão da Justiça desta segunda-feira (25) determina que sejam tomadas as providências necessárias para o retorno do fornecimento de embalagens adequadas e em quantidades suficientes em 48 horas. Cabe recurso.
A juíza Cynthia Torres Cristófaro, da 1ª Vara Central da capital, decidiu que está "proibida a cobrança por embalagens para acondicionamento de compras" e que as empresas têm 30 dias para fornecer, também gratuitamente e em quantidade suficiente, embalagens de material biodegradável ou de papel adequadas, sem cobrar nada.
Em sua decisão, Cristófaro disse que a interrupção da distribuição grátis das sacolinhas "nitidamente onera desproporcionalmente o consumidor".
Ela ponderou que "é notório que a prática comercial costumeira é do fornecimento do lojista de embalagem para que o consumidor leve consigo as mercadorias que adquire".
Ela disse que o fim do fornecimento de sacolas pelos supermercados para os consumidores "causou tamanha estranheza".
Ela deferiu ação civil pública movida pela Associação Civil SOS Consumidor contra a Apas (Associação Paulista de Supermercados) e os supermercados Sonda, Walmart, Pão de Açúcar e Carrefour.
GRUPO SONDA
O Grupo Sonda de supermercados confirmou nesta segunda a distribuição gratuita de sacolas plásticas biodegradaveis em duas lojas da rede em São Paulo, Pompeia (zona oeste) e a Maria Cândida, no Carandiru (zona norte).
Segundo a empresa, o fornecimento gratuito começou no sábado por conta do alto índice de reclamação dos consumidores. Os gerentes das demais 22 lojas estão autorizados a analisar cada caso e fornecer sacolas.

27 de março de 2012

Zara e as falácias de Responsabilidade Social e Empresarial

Em agosto de 2011, a Zara foi uma das empresas mais citadas no noticiário - e não apenas naquele especializado em negócios. Um programa de TV apresentou denúncias sobre o uso de mão-de-obra escrava para redução de custos de produção.
Algumas matérias para relembrar daquele momento podem ser vistas AQUI, AQUI, AQUI, AQUI e AQUI.

Na época, pode-se dizer que foi um escândalo - e não faltaram pessoas se dizendo horrorizadas, propondo boicote à empresa etc.

Pois bem, o que foi que aconteceu de lá pra cá?
Sugiro que o leitor interessado veja os resultados financeiros da empresa que é dona da Zara, a Inditex:
A empresa espanhola Inditex, dona da Zara e de outras varejistas de moda, registrou lucro líquido de 1,9 bilhão de euros no ano fiscal de 2011, terminado em 31 de janeiro. O valor representa um aumento de 12% em relação a 2010.

As vendas líquidas da companhia cresceram 10%, chegando a 13,8 bilhões de euros, na mesma base de comparação. As vendas no conceito mesmas lojas, estabelecimentos com no mínimo um ano de atividade, aumentaram 4%.

O lucro antes da juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) cresceu 10%, alcançando 3,2 bilhões de euros. A margem Ebitda permaneceu praticamente estável, em 23,6%, frente 23,7% no ano anterior.

As despesas operacionais também subiram 10%, para 4,9 bilhões de euros, principalmente como resultado da expansão da área de vendas e da abertura de novas lojas.

A Inditex terminou 2011 com 5.527 lojas, 483 a mais do que no ano anterior, considerando as nove bandeiras com as quais opera. Só na China foram 132 novos pontos de venda. A companhia chegou a cinco novos mercados no ano passado: Austrália, Taiwan, Azerbaijão, África do Sul e Peru. No Brasil, a empresa tem 32 lojas Zara.

Em 2012, a Inditex espera abrir entre 480 e 520 lojas. Cerca de 70% dos novos contratos já foram assinados, mas algumas aberturas podem não ocorrer ainda este ano, comunicou a companhia.A Inditex informou que vai abrir uma loja virtual da Zara na China no próximo inverno. A Inditex vende pela internet apenas em 18 mercados europeus, nos Estados Unidos e no Japão.
FONTE: Valor Econômico (21/03/2012)
Para quem quiser esmiuçar os resultados financeiros do grupo, eis AQUI o relatório que compreende o período de fevereiro de 2011 a janeiro de 2012.
A Inditex, em seu site de relações com investidores, informa todo aquele lenga-lenga de responsabilidade social, sustentabilidade etc.... O interessado em ficção (de baixa qualidade) pode divertir-se AQUI.

Entretanto, como a realidade encarregou-se de provar, esse blablabla de responsabilidade social empresarial não passa de blablabla para enganar xiita-chaato.

Quem efetivamente assegura o crescimento de vendas e lucros da Zara não mudou seus hábitos de compra por causa das denúncias de mão-de-obra escrava. Pelo visto, as ameaças de boicote não resistiram à verdade: pouquíssimas pessoas se importam com o uso de mão-de-obra escrava.

A hipocrisia da responsabilidade social segue em alta!

4 de março de 2012

Preço mais relevante do que "sustentabilidade"

A notícia é do Estadão de hoje (com grifos meus):
A queda de 35%, ou quase 6 bilhões de litros, nas vendas de etanol nos últimos dois anos coloca em risco o cumprimento das metas de corte das emissões de gases de efeito estufa assumidas pelo Brasil.

O movimento surpreendeu o Ministério do Meio Ambiente, cujo cenário principal para emissão de gases de efeito estufa pressupunha uso crescente de etanol. A expansão do biocombustível seria responsável por uma redução de 79 a 89 milhões de toneladas de gás carbônico lançadas na atmosfera até 2020, numa contribuição entre 8% e 9% da meta total de corte das emissões com que o governo se comprometeu em 2009.

Grande parte do cumprimento da meta depende da redução do desmatamento na Amazônia e no Cerrado, maior fonte dos gases de efeito estufa no País. A queda nas vendas de etanol ao consumidor torna ainda mais crucial o combate às motosserras.

Documento publicado pelo Ministério do Meio Ambiente no ano passado estima que as emissões de gás carbônico por veículos cresceriam até 2020 a uma média de 4,7% ao ano, por conta do aumento da frota de veículos no País. Esse porcentual já é maior do que a média de crescimento das emissões registrada num período de 30 anos, até 2009, ano em que o Brasil assumiu metas de redução das emissões de gases de efeito estufa para 2020.

Mas o cenário traçado pelo documento intitulado Inventário de Emissões Atmosféricas por Veículos Rodoviários apresentava como principal contribuição para a redução das emissões o programa de álcool hidratado. Na contabilidade oficial, as emissões de CO2 provocadas pelos veículos movidos a álcool são neutralizadas pela captura de carbono no processo de cultivo da cana-de-açúcar.

O aumento de venda de carros flex, que crescia sem parar desde 2003, deveria continuar no mesmo ritmo, indicou o cenário oficial. Em 2009, os flex já representavam 37% da frota de automóveis, e dominavam a venda de carros novos.

Mas esse cenário não se confirmou. No ano passado, as vendas de carros flex caíram pela primeira vez desde o lançamento dos motores com a tecnologia brasileira. Os licenciamentos de carros flex caíram para 83% do total de carros vendidos em 2011, o menor porcentual em cinco anos, conforme informou o Estado em fevereiro.

Futuro. A projeção do ministério de que os carros flex rodariam alternando os combustíveis numa proporção próxima a 50% também corre o risco de não se sustentar. O uso do etanol deixa de ser vantajoso em relação à gasolina quando seu preço ultrapassa 70% do valor da gasolina nas bombas. O consumidor opta pelo preço mais vantajoso na hora de abastecer, numa equação desfavorável ao etanol.

Além disso, para conter as emissões de gases de efeito estufa até 2020 no setor de energia, o governo contabilizou o aumento da oferta interna de etanol em mais de 20 bilhões de litros, como uma das principais medidas de combate ao aquecimento global.

Dados da Agência Nacional de Petróleo (ANP) mostram uma explosão no consumo de gasolina a partir de 2010. Em dois anos, enquanto as vendas de etanol caíam 35%, as vendas da gasolina subiam mais de 39%. Desde 2005, as vendas de gasolina registravam aumento de 2% ao ano. Em 2010, elas cresceram 17,45%. Em 2011, 18,79%, alcançando 35,4 bilhões de litros, contra 10,7 bilhões de litros de etanol vendidos no mesmo ano. 

Percebe-se, pois, que os fatos contradizem aqueles defensores do dicurso "sustentável" que afirmaram (alguns, coitados, CONTINUAM afirmando) que o uso do etanol era devido, inclusive, à preocupação com a "sustentabilidade".
Balela.
Comprava-se mais etanol porque o preço era menor do que o da gasolina.
Como esta situação mudou, passou-se a comprar mais gasolina.
E foda-se o discurso vazio de "sustentabilidade". Preço é o que importa!

27 de janeiro de 2012

Abaixo à hipocrisia e à burrice da APAS (4)

Antes de mais nada, peço ao leitor que veja este vídeo (é curtinho!):



Agora, vou transcrever um trecho de uma matéria (por sinal, muito superficial) que a Folha publicou (cuja íntegra está AQUI):

Por que a Apas vai banir as sacolas plásticas descartáveis dos supermercados?
João Galassi - É demanda da sociedade. Queremos substituir sacolas descartáveis por reutilizáveis. A questão é de mudança de hábito e adequação ao uso de alternativas, como caixas de papelão, carrinhos de feira etc.

A sacola biodegradável custa R$ 0,19. Por que o supermercado não banca a despesa?
Galassi - O ponto é a descartável por uma reutilizável. A de R$ 0,19 é um paliativo em um momento transitório.

Folha - Quanto os supermercados economizarão?
Galassi - Toda a cadeia tem economia. Em São Paulo, será de R$ 200 milhões ao ano, pois 6,6 bilhões de sacolas deixarão de ser produzidas. A sacola de R$ 0,19 será revendida sem nenhuma rentabilidade, com margem zero.
Percebe-se que o Sr. João Galassi, além de expressar-se com uma clareza ímpar, também tem o hábito de mentir.
Primeira coisa: DEMANDA DA SOCIEDADE?????
AONDE????
Como foi que ele chegou a esta conclusão?
Se tem alguém que NÃO foi consultado sobre esta iniciativa hipócrita da APAS foi justamente o consumidor!

Segunda coisa: ele esquivou-se de responder por que os supermercados não arcarão com o custo da tal "sacola biodegradável". Por quê?
Simples: porque esta campanha hipócrita nada é senão um subterfúgio estúpido para aumentar a margem dos supermercados, ao excluir um custo - as atuais sacolinhas plásticas.

Terceira: ele não soube responder por que o consumidor não perceberá redução nos preços dos itens adquiridos nos supermercados, apenas e tão somente porque esta redução jamais virá.
Dizer que vão investir em "programas de sustentabilidade" significa, em português claro, o seguinte: investirão uns R$ 5 milhões no primeiro ano, apenas em propaganda e comunicação para tentar enganar alguns tolos, fazendo-os acreditar que a APAS e os supermercados estão preocupados com o meio ambiente. O resto, vai servir para aumentar a rentabilidade dos supermercados (nada contra), em detrimento da comodidade e preocupação com o cliente (TUDO CONTRA!).

Trocando em miúdos, o que a APAS está propondo como "solução" para tirar o planeta do sufoco e garantir a "sustentabilidade" é uma ação na qual os supermercados entram com o pé, e os consumidores, com a bunda.


PS - Este vídeo, abaixo, a despeito de conter erros nos cálculos, resume bem o que REALMENTE é relevante nesta campanha que a APAS, hipocritamente, está chamando de "Vamos tirar o planeta do sufoco":



25 de janeiro de 2012

Abaixo à hipocrisia e à burrice da APAS (3)

Mais um post tratando da campanha de banimento das sacolinhas plásticas em São Paulo - e a APAS resolve usar justamente a data do aniversário da cidade para dar este "presente".... Irônico, não?!
Alguém aí já ouviu falar em "cavalo de Tróia"????

Bom, tenho trocado algumas mensagens com pessoas favoráveis e outras, contrárias ao banimento das sacolinhas dos supermercados.

Acho cabível esclarecer uma coisa: eu, pessoalmente, não serei MUITO afetado pela mudança, pois tenho o hábito de comprar pela internet - sim, recorro ao Sonda e ao Pão de Açúcar para poder comprar via internet e receber os produtos em casa. Carnes, queijos, enlatados, itens de limpeza, congelados, leite, Coca, cerveja.... Tudo, enfim.
Porém, vez ou outra, passo no supermercado voltando para casa - e, neste momento, o supermercado que não oferecer as sacolinhas para que eu, cliente, tenha a conveniência de carregar minhas compras sem ter que colocar carnes e queijos numa caixa de papelão cheirando a Omo, vai perder o cliente potencial.
Largo tudo no caixa - sem pagar, obviamente - e vou embora.
Não tenho dúvida de que outro supermercado vai me oferecer uma forma (menos burra e menos hipócrita) de transportar minhas compras.

Todavia, esta campanha tosca (que conta com o apoio da Prefeitura de SP e do Estado) tem um toque de tutela na vida do cidadão que me deixa indignado.
Como se não bastasse, ela parte de premissas completamente equivocadas, e pretende sensibilizar pessoas menos informadas alardeando um viés de "defensora do meio-ambiente" que, na prática, não tem.

Não tenho nada contra preservar o meio-ambiente - pelo contrário.
Contudo, não aceito ser tratado como um otário, ou como um burro desinformado que acredita em todas as mentiras (algumas, decerto inocentes; outras, certamente, cheias de má-fé) que a APAS está contando para tentar justificar o injustificável.

Isto posto, acho importante destacar os motivos que sustentam afirmar que esta campanha da APAS é BURRA. Vamos lá:

1) Substituir as atuais sacolinhas pelas sacolinhas feitas de amido (ou qualquer outra matéria-prima) supostamente "sustentável" não vai melhorar a situação dos bueiros entupidos e afins por uma razão simples: QUEM NÃO TEM EDUCAÇÃO SUFICIENTE PARA JOGAR LIXO NO LIXO VAI CONTINUAR JOGANDO SACOLINHAS "SUSTENTÁVEIS" NA RUA. 
A menos que elas decomponham-se em alguns minutos (o que não é o caso - parece que, na melhor das hipóteses, precisam de 2 anos para isso), os bueiros seguirão entupidos. Convenhamos: São Pedro não vai ficar dois anos esperando a decomposição das sacolinhas de amido antes de mandar a próximo chuva que vai sobrecarregar os bueiros entupidos de sacolinhas "eco-friendly". Ou vai????

A burrice da campanha não reside APENAS no problema da educação, mas isso é crucial.
Se a informação da Folha não estiver incorreta, uma latinha de alumínio demora mais de 1.000 anos para se decompor (íntegra da reportagem AQUI).
Confesso: morando há 36 anos em SP, eu já cansei de ver gente jogando latinhas de cerveja, refrigerante ou qualquer outra bebida em locais impróprios (ruas, praças etc).
Isso é motivo para proibir a venda das latas???????
Me poupe dessa burrice, né, APAS?!

Vamos banir dos supermercados os shampoos e desodorantes vendidos em embalagens de plástico, pneus, sachês de molho do tomate, sacos de açúcar, arroz, feijão, farinha etc ?! Tudo que é embalado em vidro será banido também?

Se a APAS e os supermercados que estão bancando esta campanha hipócrita estivessem preocupados com o meio ambiente, do jeito que estão afirmando, eles fechariam as portas, pois 90% do que vendem causa mais danos ao meio-ambiente do que as sacolinhas - especialmente se a população não tiver a educação e a civilidade de jogar lixo no lixo.


2) No caso dos aterros e lixões: mudar da sacolinha X para a sacolinha Y não vai mudar o fato de não haver, em SP, locais adequados para receber as sacolinhas "sustentáveis". A mesma reportagem da Folha supracitada informa que estas sacolinhas precisam de 180 dias para virarem matéria orgânica DESDE QUE SEJAM ENCAMINHADAS PARA UMA USINA DE COMPOSTAGEM.
Será que a APAS sabe informar aos clientes dos supermercados quantas usinas de compostagem existem no Estado de São Paulo????
Certamente eles não sabem. Mas eu digo: QUATORZE.
Na cidade de São Paulo, são DUAS.
(Rápido adendo: perto da minha casa havia uma usina de compostagem, que foi fechada por pressão dos moradores da região, devido ao meu-cheiro, ratos, baratas, insetos e afins que perturbavam os moradores; os detalhes estão AQUI. Fim do parêntesis.)

Todo o lixo recolhido no Estado (e na cidade) é levado para estas usinas de compostagem? Não.
Então, se um ecochato-xiita tem sua sacolinha "sustentável" levada para um destino que não tem condições da fazer a compostagem do lixo, tanto faz se ele pagou R$ 0,20 por ela, se ele acha que está protegendo o meio-ambiente etc. Não está.
Trocando em miúdos: foda-se.
O meio-ambiente também se fodeu - mas a APAS não está preocupada com isso.


3) O site da campanha mentirosa, burra e hipócrita da APAS (já dei o link nos posts anteriores, não preciso repetir mais uma vez) afirma que o uso das sacolinhas de amido de milho NÃO irá acarretar aumento do preço dos alimentos que usam milho em sua composição.
MENTIRA.
BURRICE.
BOBAGEM.

Qualquer pessoa que tenha carro flex sabe que nos últimos 2/3 anos o preço do etanol subiu tanto que tem sido mais vantajoso abastecer com gasolina.
Por que isto ocorreu?
Lei da oferta e demanda. Economia pura, simples, elementar.
Conforme aumentou a venda de carros flex, aumentou também a demanda pelo etanol - que era barato até o momento em que houve o aumento da demanda..... Inobstante, o preço do açúcar também aumentou, então muitas usinas preferiram produzir açúcar ao invés de etanol.

Percebe, leitor?!

Estamos falando de um ciclo vicioso. Hoje, devido à baixa quantidade de sacolinhas de amido de milho, ainda não existe impacto na demanda desta matéria-prima.
Porém, caso as atuais sacolinhas plásticas sejam TOTALMENTE substituídas, a demanda pelas sacolas de amido vai explodir (mais até do que no caso do etanol, pois ali havia outras alternativas - gasolina e diesel -, coisa que praticamente não acontece no caso das sacolinhas).

Quando aumenta a demanda por um bem/serviço, o preço deste bem/serviço aumenta também. Se o aumento será diretamente proporcional ou não, vai depender da elasticidade-preço do bem/serviço em questão - mas que vai aumentar, vai.

Vai haver maior demanda pelo amido de milho, o que vai encarecer alimentos que usam amido de milho em sua composição..... Um ciclo vicioso. Resultado: aumento de preços.
O consumidor que hoje aceitar de cabeça baixa a imposição da APAS está assinando um atestado de que está disposto a pagar mais caro pelos alimentos futuramente.





Vou seguir "destrinchando" esta campanha idiota da APAS, em breve.
Por ora, recomendo aos leitores que AJAM.

Como?

PRIMEIRO - No supermercado, EXIJA as sacolinhas (que estão embutidas no preço de todos os produtos que são comprados), sem cobrança adicional. 

SEGUNDO - Assine e divulgue este abaixo-assinado protestando contra esta campanha ridícula da APAS.

E, para finalizar, recomendo a leitura DESTE TEXTO, para refletirmos sobre demagogia, problemas reais, meio ambiente etc. Garanto que a leitura compensa!


23 de janeiro de 2012

Abaixo à hipocrisia e à burrice da APAS (2)

Dando sequência à questão da campanha hipócrita que a APAS desencadeou para que os supermercados deixem de fornecer as sacolas plásticas aos consumidores a partir do próximo dia 25/01, quero tratar do PRINCIPAL problema desta campanha.
Este problema se chama HIPOCRISIA.

A campanha da APAS é HIPÓCRITA.
Entender o porque é bastante simples.

O site feito para defender a campanha tenta fazer com que o visitante do site tenha a impressão de que a APAS e os supermercados estão preocupados com o meio-ambiente e que, como consequência desta preocupação, bolaram a campanha. Bobagem.
Ao abolir o uso das sacolinhas plásticas, a APAS está transferindo TODO O CUSTO  da mudança de hábito para o consumidor. Se a APAS e os supermercados que (eventualmente) aderirem a esta campanha tivessem uma preocupação LEGÍTIMA, VERDADEIRA, eles assumiriam pelo menos metade dos custos (ou pressionariam os fabricantes a usar menos plástico em seus produtos, como alimentos, detergentes, shampoos etc).
O fato é o seguinte: a APAS está usando esta campanha para reduzir um custo dos supermercados - aproveitando-se do discurso de "sustentabilidade", tão na moda atualmente.

Trocando em miúdos, a campanha consiste em fazer caridade com o dinheiro dos outros! Aí é fácil, né?!

É a mesma coisa que eu dizer para meus vizinhos que temos todos que usar o transporte coletivo para nos locomover em São Paulo - e, depois de "conscientizar" meus vizinhos, pegar meu carro, com ar-condicionado, para ir trabalhar, enquanto o custo de transação/mudança fica para eles, não para mim. Hipocrisia.

Por que a APAS e os supermercados não SUBSTITUEM as sacolas atuais pelas sacolas que eles irão vender a aproximadamente R$ 0,20? Se houvesse produção em larga escala destas sacolas, seu custo sofreria redução natural.

Mas, ao invés disso, a campanha prefere a hipocrisia como cortina de fumaça para reduzir um custo dos supermercados - que nos últimos anos têm sofrido pressões nas suas margens de lucro, inclusive em virtude do aumento na inflação.

A campanha joga todo o custo da mudança para o consumidor, que não terá redução nos preços dos itens adquiridos (o que deveria acontecer, haja vista que os supermercados deixarão de comprar as atuais sacolinhas), e ainda terá que adquirir sacolas para transportar suas compras - isso sem falar na utilização das sacolinhas para acomodar lixo e outras coisas em casa. Ou seja, mais um custo: comprar maior quantidade de sacos de lixo do que antes.

Qual o custo para os supermercados? NENHUM.
A campanha da APAS transfere os custos para o consumidor, usa o discursinho de "sustentabilidade", aumenta as margens e ainda espera que o otário do consumidor fique feliz, agradeça....

Um recadinho meu para a APAS: eu não sou otário!


22 de janeiro de 2012

Abaixo à hipocrisia e à burrice da APAS (1)

Quero tratar desta campanha BURRA E HIPÓCRITA criada pela Associação Paulista de Supermercados (APAS), que pretende, a partir do próximo dia 25/01, banir o fornecimento de sacolas plásticas nos supermercados de SP.
Reuni uma série de informações e links, e pretendo usar aos poucos.

Por ora, recomendo que o leitor informado, que não queira ser ludibriado por uma campanha tão cretina como esta tome duas atitudes:
1) Participe do abaixo assinado contra esta campanha - basta clicar AQUI.
2) Exija, quando for ao supermercado, que o estabelecimento forneça gratuitamente as sacolinhas com as quais estamos acostumados. O consumidor tem mais poder do que imagina - basta saber exercê-lo.

Inicialmente, recomendo esta leitura AQUI.

E, para divertir (e instruir), veja o vídeo abaixo:


12 de fevereiro de 2010

O preço do etanol matou a sustentabilidade

Eu sempre disse, em aulas inclusive, que a "sustentabilidade" não passa de um modismo, um exagero.
Uma afirmação que eu já fizera aqui no blog, para comprovar isto, é que ninguém compra carro flex ou mesmo escolhe abastecê-lo com etanol por causa da preocupação com o meio ambiente - a razão é obviamente pecuniária, ou seja, DINHEIRO.

Esta matéria, que li na FOLHA, comprova claramente isso:
A disparada do preço do álcool nos últimos meses já produz efeitos diretos no consumo. De acordo com o diretor da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis), Allan Kardec Filho, houve redução de 25% na demanda por álcool em janeiro, na comparação com dezembro. "Desde outubro, o preço do álcool vem subindo, e o consumidor que tem carro flex tem recorrido mais à gasolina. O álcool já perdeu sua vantagem em quase todo o Brasil, com exceção do Mato Grosso", afirmou, durante divulgação dos dados relativos ao mercado de combustíveis em 2009.

Kardec destacou que, a partir da segunda quinzena de março, espera-se recuperação do consumo do álcool, à medida em que os preços comecem a cair com a colheita da safra de cana-de-açúcar. Levantamento da ANP mostra que o preço do álcool combustível subiu 13,96% em 2009.
A gasolina teve variação bem menor, ficando 1,23% mais cara. Já o óleo diesel barateou, apresentando redução de 6,17%, segundo pesquisa feita em postos de combustíveis de todo o país.
No total do mercado em 2009, no entanto, o álcool seguiu em firme trajetória ascendente. O chamado álcool puro (álcool hidratado) teve o consumo ampliado em 23,9%. Somado ao álcool anidro, totalizou 22,8 bilhões de litros em 2009, mantendo-se à frente da gasolina A (sem adição de álcool anidro), cuja demanda somou 19 bilhões. Se o anidro for acrescentado, o consumo chega a 25,4 bilhões de litros.

Dentro da matriz de consumo veicular de combustíveis, o álcool ganhou participação, respondendo por 20,6% do total. Em 2008, significava 18,2%. O quadro completo mostra uma matriz com maior participação de combustíveis renováveis.
O biodiesel, por exemplo, que detinha 1,3% de participação na matriz em 2008, representou 1,7% no ano passado.
Por outro lado, o óleo diesel perdeu participação: significou 50,2% do total em 2009, ante 52,6% no ano anterior.  A gasolina seguiu ritmo parecido, e representou 25,7% da matriz veicular de combustíveis em 2009. No ano anterior, significava 26,1% do total.

Como eu sempre disse: o que sustentou o aumento do consumo do etanol (álcool) foi o preço. Quando o preço subiu (sequer importa a CAUSA desse aumento), o consumo caiu.

Então as pessoas acharam o preço do álcool mais importante do que a "sustentabilidade"????


Puxa, que supresa!!!!!!!

7 de fevereiro de 2010

Dados deturpados: as falácias do IPCC

Como o termo "sustentabilidade" virou mantra, somos obrigados a aturar centenas de publicações que citam o IPCC, e os dados/previsões feitos por este órgão da ONU. Aliás, já percebi que os recém convertidos a defensores da "sustentabilidade" ignoram não apenas o que vem a ser exatamente a tal "sustentabilidade", mas ignoram também o que significa IPCC.
Uma dica: "Intergovernmental Panel of Climate Change".

Pois bem, eis a matéria que li na Folha de ontem:


O IPCC, o painel do clima das Nações Unidas, sofreu mais um golpe ontem. O governo da Holanda apontou mais um erro no relatório do painel sobre os impactos do aquecimento global, dizendo que um dado que forneceu ao grupo foi mal interpretado.
O IPCC afirmou que está verificando o assunto.

No relatório, o painel do clima afirma que 55% do território holandês já está abaixo do nível do mar. "Deveria estar escrito que 55% da Holanda está sob risco de inundação", afirmou em comunicado a Agência Holandesa de Avaliação Ambiental: 26% do país está abaixo do nível do mar e 29% está sob risco de alagamento por rios. 
Seria apenas uma trivialidade -a própria agência emenda que a Holanda é sensível à mudança climática e que a "redação incorreta" do IPCC não muda essa conclusão-, se o painel do clima e seu presidente, Rajendra Pachauri, já não estivessem na berlinda.

No mês passado, Pachauri veio a público admitir que havia um erro numa previsão que consta do relatório de que as geleiras do Himalaia derreteriam até 2035. No fim do ano passado, quando o governo indiano questionou a informação, Pachauri insistiu em que ela estava correta. A origem do dado era uma reportagem.
Na semana passada, outro problema apareceu: uma informação sobre a porção da Amazônia sensível a mudanças no regime de chuvas foi extraída de um relatório do WWF, não de um artigo da literatura científica -embora neste caso a informação esteja correta.
E uma reportagem do jornal britânico "The Guardian" publicada no dia 1º afirma que o britânico Phil Jones, um dos cientistas do painel, escondeu falhas em dados de temperatura de uma estação meteorológica chinesa que usou em seu trabalho. 
Jones já havia renunciado a seu posto de diretor da Unidade de Pesquisa Climática da Universidade de East Anglia depois que um arquivo de e-mails supostamente roubado por negacionistas do aquecimento global revelou conduta duvidosa dele e de colegas.

A sequência de problemas fez cientistas do próprio painel e ambientalistas pedirem a renúncia de Pachauri. O indiano disse anteontem, numa entrevista à TV britânica BBC, que não pretende sair. Ontem, recebeu apoio do governo de seu país. "Como líder, ele é passível de responsabilização pela maneira como lida com óbvios desvios ocorridos sobretudo no grupo 2 [que lida com impactos]", disse o físico Gylvan Meira Filho, da USP, ex-membro do IPCC. "Deveria renunciar."

Um dos coordenadores do relatório do grupo 2, Ulisses Confalonieri, da Fiocruz de Belo Horizonte, diz que o indiano é um líder "muito hábil" e que o IPCC não é imune a falhas. "Se saiu um erro, erraram os autores e erraram os revisores." Segundo ele, o problema é que o trabalho do painel tem uma visibilidade muito grande. "Qualquer passo em falso e todo mundo cai em cima, diz que é má-fé. Mas os instrumentos de análise têm incertezas, como qualquer coisa em ciência."

Confalonieri cita um dado que ele mesmo mandou excluir do sumário executivo do relatório, por exagerado. "Era uma projeção da Organização Mundial da Saúde que dizia que 150 mil pessoas haviam morrido por impacto do clima na saúde. Mas a metodologia usada era muito incipiente", lembra. Segundo ele, o trabalho do painel não sairá arranhado do episódio. "Pode haver uma perda temporária de credibilidade, mas depois ela se recupera."

Reparem nos trechos com grifos (meus).
Estão diretamente relacionados àqueles problemas de METODOLOGIA utilizada em pesquisas, FONTES de dados (usar a WWF como fonte de um dado é o cúmulo do amadorismo!) etc....
São aquelas pequenas coisinhas, os "detalhes", que destroem por completo uma afirmação.
Especialmente as afirmações catastróficas que o IPCC faz, para chamar a atenção.

30 de setembro de 2009

Evidências e rigor

O blog do Clemente Nóbrega é um verdadeiro oásis de racionalidade no que tange às discussões em gestão. Tomo a liberdade de reproduzir um post recente:
Reparem como "rigor" pode ser a diferença entre vida e morte.
Os médicos que deram ontem a notícia sobre o estágio de "cura" do câncer da Dilma Russeff são bons.Têm mentalidade científica.Não os conheço mas respeito.Reparem o cuidado com que escolheram as palavras:
"Não há mais evidência de câncer", foi o que disseram.
Isso é totalmente diferente de dizer: "Há evidências de que não há mais câncer" -o que equivaleria a :"A senhora está curada". Nenhum médico digno desse nome diz isso porque sabe que é impossível detectar manifestações em todas células potencialmente cancerosas.
Em medicina,como em tantas outras instâncias do conhecimento, "AUSÊNCIA DE EVIDÊNCIA NÃO É EVIDÊNCIA DE AUSÊNCIA". 
Leia de novo.
Não é jogo de palvras,é rigor científico que (neste caso) tem a ver com vida e morte.

Seria bom que o mesmo rigor fosse usado em gestão por exemplo, mas que nada! Aqui a gente prefere platitudes como "se você pode sonhar,você pode fazer"(claro que não pode!),ou fica perguntando "quem mexeu  no seu queijo",ou cai nas garras de algum "líder servidor", ou aceita sem pensar as charlatanices de quem promete riqueza baseda em "atitude". 
Socorro! Tem algum médico aí?

Este "achismo" que INFELIZMENTE permeia a maioria esmagadora das discussões sobre administração (e estou incluindo, no rol, o marketing) gera problemas graves.

Outro dia um aluno meu estava assistindo a uma "palestra" de um ilustre colega meu (professor), e após ouvir um petardo de ignorância proferido pelo ilustríssimo, me mandou um torpedo (SMS). A afirmação durante a palestra foi algo como "as melhores empresas com ações negociadas em bolsa estão neste patamar devido ao investimento em sustentabilidade".
Muita ignorância junta, não ?!

Quer dizer que a CAUSA da situação confortável das ações destas empresas é a sustentabilidade ?
Usando a linha de raciocínio apontada (muito corretamente) pelo Clemente, aonde estão as evidências disso ?!
Há uma diferença BRUTAL entre dizer que as empresas que estão melhor posicionadas na bolsa investem em "sustentabilidade" (seja lá o que isto venha a significar), e afirmar que elas estão com boas posições na bolsa DEVIDO ao investimento em "sustentabilidade" (de novo: seja lá o que isto venha a significar).

A rigor, baseando-se apenas em evidências, ambas as afirmações são falaciosas.
Mas a segunda, além de falaciosa, é burra, pois sugere uma relação causa-efeito não apenas sem nenhuma comprovação mas propositadamente falsa.

O pior é que temos que conviver com afirmações deste tipo todos os dias.
E, para piorar ainda mais a situação, canso de ver "professores" cometendo o mesmo erro do achismo, afirmando estas bobagens ridículas.

Não é de se surpreender que eu acabe  vendo, em monografias e trabalhos de conclusão de curso, achismos equivalentes, muito frequentemente infestados de viés oriundo dos livrinhos de autoajuda rasteirinhos como os monges e queijos da vida.....

E quando saem estas besteiras sobre comportamento do consumidor, então ?! Putz, chove achismo......

26 de agosto de 2009

O malabarismo retórico do discurso "sustentável"

É impressionante o discurso que algumas pessoas fazem. Para conseguirem, de alguma forma, chegar a uma conclusão que lhes favoreça, fazem verdadeiros malabarismo retóricos, distorcendo o que for preciso.
Esta eu li na Folha de São Paulo de 25/08/2009 (na íntegra, para assinantes, AQUI):
Apenas 7% dos consumidores brasileiros consideram aspectos de responsabilidade socioambiental das empresas na hora de escolher um produto, revela a pesquisa Monitor de Responsabilidade Social 2009, da Market Analysis, que será divulgada na próxima semana em São Paulo.

O percentual se refere aos consumidores que exercem sistematicamente o que se chama "compra sustentável": punindo (deixando de comprar ou falando mal) ou premiando (comprando preferencialmente ou falando bem) as empresas a partir de sua atuação socioambiental. A participação de quem somente premia as empresas soma cerca de 15% dos consumidores, enquanto a de quem pune representa 8% do total.

"Esse patamar oscilou muito pouco nos últimos anos, o que nos permite fazer duas avaliações distintas. Se de um lado continuamos muito aquém da média de países como Estados Unidos, Inglaterra ou Alemanha no quesito engajamento do consumidor, de outro podemos afirmar que isso não representou um modismo passageiro por aqui, sobretudo para os consumidores que compram preferencialmente de empresas responsáveis", afirma o diretor da Market Analysis, Fabian Echegaray.

A onda da publicidade em torno da sustentabilidade, ainda que não tenha se traduzido em mais ações práticas na hora da compra, aumentou o nível de conhecimento do consumidor brasileiro sobre o tema. E também o de desconfiança. Segundo a pesquisa da Market Analysis, a diferença entre o que os consumidores esperam que as empresas façam e o que acham que elas realmente fazem alcançou 87 pontos percentuais no Brasil. Um recorde histórico, inclusive na comparação internacional, que engloba outros 31 países.
"Quando um tema desses ganha a exposição pública que vimos nos últimos anos, é natural que os consumidores se tornem mais críticos depois de um certo deslumbramento inicial. Esses ciclos fazem parte, no entanto, da consolidação desse conceito na sociedade, assim como ocorreu em outros países", diz o consultor Ricardo Voltolini, da Idéia Sustentável.

Segundo os especialistas, o fraco engajamento do consumidor brasileiro tem diversos motivos. Além dos conhecidos, como o baixo nível de escolaridade média ou a preferência pelo fator preço, um dos mais citados é a ausência de informações a respeito das características socioambientais do próprio produto nas embalagens e gôndolas de supermercado. De fato, procurar informações sobre o processo industrial de um produto, como a emissão de carbono ou o consumo de energia envolvido na produção, é uma missão quase impossível para o consumidor.
A primeira coisa que me chama a atenção: atualmente, QUALQUER UM é chamado de "especialista" (em qualquer coisa).Acho que estou ficando velho..... Antigamente, para alguém ser "especialista", era necessário estudar muito, pesquisar muito. Hoje, não.
Engraçado é acompanhar as declarações e "análises" (sic) feitas pelos tais especialistas: nenhuma se sustenta, de tão frágil. Basta ver, AQUI, declarações do mesmo Fabián Echegaray, do ano passado, que contradizem TUDO o que ele afirmou agora em 2009.

Além dessa ranhetice minha, destaco alguns pontos da reportagem:
1) "Ao mesmo tempo em que vemos inúmeras propagandas a respeito do assunto, temos pouquíssimas informações que esclareçam esses aspectos para o consumidor final, para que ele possa canalizar sua preocupação socioambiental nos hábitos de compra. Hoje essas informações se restringem à madeira certificada, ao papel reciclado e ao consumo eficiente de energia de alguns eletroeletrônicos", aponta Echegaray.
E você, caro leitor, sabe POR QUE isso acontece ?
É mais simples do que parece: os consumidores não têm interesse REAL em obter estas informações. Simples, não ?!

2) Mas, se o consumidor brasileiro ainda não considera o aspecto socioambiental ao comprar ou não um produto, qual é o impulso para que as empresas passem a oferecer esse tipo de informação? Uma das respostas pode vir do setor varejista, que começa a se movimentar com o objetivo de ampliar esse leque de informações ao consumidor, inclusive como fator de ganho de competitividade para suas marcas próprias. Segundo a Folha apurou, as três maiores redes de supermercados no país -Pão de Açúcar, Carrefour e Wal-Mart- têm planos ambiciosos nesse sentido.
Sabemos a razão disso, não ?!
Chama-se MIOPIA.
No caso de algumas empresas, a MIOPIA de seus dirigentes (administradores, gerentes, presidentes etc) os força a investir na propaganda (enganosa, na maioria esmagadora dos casos) calcada na "sustentabilidade", pois eles se sentem culpados por pagar salários baixos, por poluir o meio-ambiente, ou então é apenas comodismo (do tipo "vamos aproveitar a "onda verde" e anunciar que nossa empresa é sustentável).
Basta ver o caso do Wal-Mart: a empresa sempre foi acusada de pagar salários baixos (o que é verdade). Mas o "politicamente correto" quer que a empresa pague altos salários - contudo, os clientes do Wal-Mart querem que a empresa continue vendendo com preços abaixo da concorrência. Ora, são "desejos" diferentes (opostos, na verdade). O Wal-Mart sempre preferiu ouvir a demanda de seus clientes - ainda bem! Afinal, são os clientes, e não os "politicamente corretos xiitas" que garantem as receitas bilionárias do varejista.
A empresa paga salários baixos ?
Sim.
Mas, se há um contingente de pessoas dispostas a trabalhar por salários baixos (que, convenhamos, é melhor do que nenhum salário), OK.

3) Como de costume, as tais "pesquisas" feitas na área denominada "sustentabilidade" são tão rasas quanto o QI do Lula. Todas têm um jeitão tão amador, tão pateticamente frágil, que me proporcionam cólera ao ler.

E, assim, seguimos vendo essas barbaridades.....
Em tempo: recomendo ENTUSIASTICAMENTE algumas linhas escritas pelo Clemente Nóbrega sobre o "Triple Bottom Line", em seu blog. Para ir direto aos posts que tratam da questão, basta clicar AQUI, AQUI, AQUI e AQUI.
Discussões IMPRESCINDÍVEIS.

23 de março de 2009

Marketing do fim do mundo

Uma dica de leitura: AQUI.
O texto em si é ótimo - e os comentários são ainda melhores !!!!!
Eis um trechinho:
Essa "sustentabilidade" é um eufemismo ideológico para bom senso. Não gastar mais do que se tem, não sujar mais do que se pode limpar. Um bom começo seria economizar esses gastos astronômicos com a eco-burocracia e sua indústria do alarmismo.

Relatórios, papéis, consultores, seminários, almoços, ONGs e mais ONGs estão consumindo com voracidade os recursos planetários e a paciência humana.

Os países da Cortina de Ferro destruíram seu meio ambiente com seu socialismo obscurantista. Bastou entrar um pouco de luz, liberdade e bom senso para a situação se reverter. O mundo está procurando (e encontrando) saídas econômicas e tecnológicas para a poluição. Foi assim com a camada de ozônio, com o ar das metrópoles (os índices de melhora nunca fazem barulho), com os agrotóxicos.

Mas isso estraga a onda do romantismo de aluguel. O marketing do fim do mundo fuzila tudo que o desminta.

Fique no escuro, se quiser. Mas cuidado, porque daqui a pouco vão te convencer a almoçar dia sim, dia não, para reduzir os gases na atmosfera.
Depois, sugiro este link AQUI.
Neste blog, um trecho me chama a atenção:
Para auxiliar na redução de energia, o brasileiro busca: adquirir produtos mais econômicos (89%) desligar aparelhos ao invés de deixá-los em stand by (86%); comprar produtos feitos de material reciclado (84%) e usar transporte público (80%). A média global das principais ações nesse sentido é de desligar eletrodomésticos na tomada e usar dispositivos mais econômicos; reduzir o uso de ar condicionado e aquecedores, além de reciclar o lixo.
98% dos brasileiros alegaram que trocariam de fornecedor se um produto fosse certificado, com o objetivo de impactar menos as mudanças climáticas, contra 90% no mundo.
Dados do Brasil mostram que nos últimos doze meses consumidores trocaram de fornecedores (ex. automóveis, vestuário, alimentos, eletroeletrônicos), levando em consideração as mudanças climáticas, com a avaliação das seguintes ações: 48% pelo melhor uso de materiais reciclados, 40% pelo melhor uso de materiais mais amigáveis com o meio ambiente e 39% pelo melhor uso de materiais biodegradáveis.
Mais uma daquelas pesquisas sem pé nem cabeça: você, caro leitor, conhece alguém, uma única pessoa que seja, que prefere pegar ônibus DEVIDO À PREOCUPAÇÃO COM O MEIO AMBIENTE ?
Veja: eu conheço pessoas que pegam ônibus por vários motivos - desde o mais óbvio, como "é o único meio de transporte que tenho à minha disposição" - até como alternativa ao rodízio (no caso de São Paulo). Eu mesmo, quando vou dar aula na zona leste, deixo o carro na Barra Funda e vou de metrô.
Mas é só para evitar o trânsito infernal da Marginal Tietê ou da Radial Leste - não tem nada a ver com "evitar a poluição".

19 de fevereiro de 2009

INTEGRAÇÃO ESTRATÉGICA OU MARKETING?

Primeiro, a contextualização.
Em Janeiro, publiquei aqui no blog um post tratando do freqüente problema de incompreensão do termo MARKETING.
Hoje recebi um e-mail da autora do artigo que eu comentei, Nathalie Nunes. Eis aqui a íntegra da mensagem que ela me enviou:
Bom dia Carlos,
Fiquei surpreendida com o seu comentário sobre o artigo que publiquei na revista RI pelas seguintes razões:
1.O seu caráter ofensivo num espaço tão público como a internet;
2.Você não ter entendido do que tratava o artigo;
3.Você não ter entrado em contato através do meu email que se encontrava no final do artigo para manifestar sua indignação.

Finalmente, considero que adotar um estilo irreverente e polêmico pode ser muito interessante. No entanto, acredito que qualquer que seja a personalidade de um profissional, respeito e ética são imprescindíveis. Lamento que, nesse caso, você não tenha adotado esse comportamento.

Estou à disposição para dialogarmos sobre os pontos levantados tanto por você quanto por mim através do email indicado no artigo. Se realmente dialogar era sua intenção ao criar o blog.

Nathalie Nunes
Nathalie,
A julgar pela mensagem que você me enviou, quem não entendeu o texto que postei no blog foi você.
O meu comentário estava analisando a costumeira confusão que leigos fazem no que tange ao conceito de marketing.
O seu artigo na Revista RI reforça esta confusão, pois você escreveu bobagem lá.
Desde o título, passando pelo conteúdo, o seu artigo confunde o conceito de marketing com "propaganda enganosa".

Não há, nem houve, caráter ofensivo.
Indique, por favor, aonde está a "ofensa".
Ela não existiu. Aliás, como eu poderia ofendê-la, se nem sequer a conheço ?

Talvez você esteja querendo dizer que eu fui ofensivo ao analisar o seu texto ?!
Será isso ?!
Bom, se for este o caso (não tenho certeza, pois sua mensagem apenas citou "O seu caráter ofensivo num espaço tão público como a internet"), novamente você está fazendo uma ligeira confusão.
Eu não fui ofensivo, eu fui CRÍTICO.
A despeito de, no Brasil, ser crítico é usualmente associado a ser ofensivo, o que eu fiz foi analisar o seu texto, e indicar os erros (crassos) que dele constam.

Ofensivo, por outro lado, é o seu texto: ele ofende a inteligência do leitor, ao imaginar que o este leitor não saiba a diferença entre marketing e propaganda enganosa.

O título do seu artigo já começa de forma errada, pois aponta uma escolha: A responsabilidade social das empresas e as parcerias estratégicas com o terceiro setor: INTEGRAÇÃO ESTRATÉGICA OU MARKETING?
Ora, o título aponta uma escolha: OU se trata de integração estratégica OU se trata de marketing.
Nitidamente, se você não vê nenhum erro nisso, você precisa pesquisar o que é marketing, e como ele se integra à estratégia empresarial.

Mais adiante, seu artigo traz o seguinte trecho: No entanto, a sinceridade e eficiência de muitas parcerias são questionadas, ao apontar o seu caráter marketeiro e qualificá-las de: window dressing, vitrine superexpondo ações sem valor agregado; greenwash, propaganda para encobrir um desempenho ambiental fraco; e bluewash, uso da credibilidade das Nações Unidas na declaração pública de abraçar os
princípios do Pacto Global, sem práticas consistentes.

O termo "caráter marketeiro" (além do erro gramatical, dado que o termo "marketeiro" não existe nem em português, nem tampouco em inglês) deixa clara sua intenção de associar o marketing à suposta propaganda enganosa.
Novamente, se é isto que você acha sobre marketing, falta uma ampla e detalhada pesquisa, alguns estudos e leituras.
Um bom começo seria este artigo AQUI, que eu costumo discutir nas primeiras aulas de marketing na graduação, justamente para desmistificar o termo marketing - que, no senso comum, na visão dos leigos, é frequentemente confundido com propaganda ou algumas outras coisas.
Aliás, como apontam os professores Campomar e Ikeda, neste artigo, não são apenas os "leigos" que cometem este tipo de erro: há aquela categoria dos "supostos especialistas", ou seja, pessoas que SE DIZEM experts no assunto, mas na realidade acabam cometendo os mesmos erros primários dos leigos (desta vez, sem aspas).
E foi justamente neste sentido que minha postagem no blog criticou os "supostos especialistas". A Revista RI, como eu descobri graças ao seu artigo, comprova a hipótese.

Por que não usei o e-mail para "manifestar indignação" (como você escreve) ?
Para quê ?
Não se trata de indignação com uma pessoa em particular (seja você, seja qualquer outra).
Conforme eu escrevi no blog, eu trato desta errônea confusão conceitual aqui no blog (inclusive, indiquei alguns links de posts anteriores, que versam justamente sobre isso). Num segundo nível, acho apenas patético e degradante que existam publicações (revistas, jornais etc) que não se dêem conta desta besteira atroz que é confundir marketing com propaganda (enganosa ou não), e acabem publicando textos travestidos de sérios e embasados quando, ipso facto, são apenas aglomerados de chavões dominados pelo mais ignóbil senso comum.

Mas sabemos que existem consumidores para diversos tipos de produtos e serviços.
Há consumidores de livros de auto-ajuda igualmente repletos de senso comum rasteiro.
Ok.
Mas eu não vou mandar e-mail para cada um, tratando disso, questionando ou criticando.
O problema é deles.
O meu problema, o meu objetivo aqui no blog, é tratar de marketing - não sob a visão deturpada de que se trata de "propaganda", mas discutindo a acepção ampla, correta, séria, e suas aplicações, resultados etc.
Esta função o blog tem cumprido. E continuará.

Inclusive para que meus alunos, e demais leitores do blog, passem a entender esta questão, discuti-la e, mais importante, trabalhar no sentido de minimizar (ou, quiçá, eliminar) estas falácias que cercam o marketing.

Quem sabe, desta forma, revistas como Exame ou RI passem a adotar um controle de qualidade que funcione.

O blog está, desde sempre, aberto às discussões deste tema tão amplo e mal-compreendido que é o marketing. O espaço de comentários é democrático, e se você (ou qualquer pessoa) quiser comentar, questionar, criticar ou elogiar o blog (e, por extensão, seu conteúdo), os meios para isso estão à disposição.

12 de janeiro de 2009

Petardos de "iguinorânssia" 2

A responsabilidade social das empresas e as parcerias estratégicas com o terceiro setor: INTEGRAÇÃO ESTRATÉGICA OU MARKETING?

Este é o título de um artigo publicado na Revista RI de Agosto/Setembro de 2008.

O início do texto está aqui:
Multiplicaram-se as iniciativas internacionais para promover a responsabilidade social empresarial (RSE) e as parcerias com governos, organizações não-governamentais (ONGs) e as Nações Unidas. Várias estruturas já existem no Brasil, para facilitar essas
relações, como o Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social e o Grupo de Institutos Fundações e Empresas (GIFE).
As parcerias intersetorais são desenvolvidas para traduzir o compromisso em RSE com ações concretas e guiar as empresas na melhoria de suas práticas socioambientais. Ainda responde às
expectativas dos seus públicos estratégicos, como indica a pesquisa do Instituto Akatu “Responsabilidade Social das Empresas”, realizada em 2006 e 2007, em que 63% dos consumidores brasileiros consultados declararam que o respeito por uma empresa aumentaria se ela fosse parceira de uma ONG ou instituição de caridade.
As empresas e o terceiro setor estão ultrapassando um histórico de desconfiança e relações tradicionalmente percebidas como conflitantes. “Alianças verdes” introduziram novos tipos de
colaboração, e as corporações entenderam que as parecerias com ONGs podem oferecer legitimidade aos seus esforços ambientais.
Os benefícios para a companhia podem ser tangíveis e intangíveis. Além de melhorar sua imagem, a companhia recebe competências específicas em questões socioambientais, otimizando a gestão de riscos. Também atrai e motiva talentos e, ao se abrir para a sociedade
civil, entende melhor as suas realidades.
A mudança de comportamento também veio das ONGs, ao deixar de lado uma posição de enfrentamento e desenvolver trabalhos conjuntos. A organização ambientalista Greenpeace, conhecida pelo seu ativismo, fornece exemplos significativos, como o carro ecológico “Smile”, desenvolvido com a firma suíça Wenko em 1997, ou a “geladeira verde” (greenfreeze), idealizada no início dos anos 1990 em colaboração com a empresa alemã Foron.
O terceiro setor está refletindo vários desafios e encontra-se em profunda mutação organizacional e financeira. A redução do apoio público o obriga a procurar novas fontes, e a sua profissionalização o instiga a se utilizar de métodos empresarias, como os imperativos de boa governança. Os benefícios da parceria com as ONGs ultrapassam o financiamento, com a
disponibilização dos recursos humanos pela empresa, que ainda participa da sensibilização à causa junto aos seus públicos estratégicos.
No entanto, a sinceridade e eficiência de muitas parcerias são questionadas, ao apontar o seu caráter marketeiro e qualificá-las de: window dressing, vitrine superexpondo ações sem valor agregado; greenwash, propaganda para encobrir um desempenho ambiental fraco; e bluewash, uso da credibilidade das Nações Unidas na declaração pública de abraçar os
princípios do Pacto Global, sem práticas consistentes.
O tal artigo é assinado por NATHALIE NUNES - que, segundo descrito na própria matéria, é consultora de
estratégia de Sustentabilidade da The Media Group, formada em Direito, com especialização em Relações Internacionais, e aluna do CEATS/FIA em Responsabilidade Social, Terceiro Setor e Avaliação de Projetos.
Puxa, tantas titulações e ela não sabe o que é marketing ?!

Trata-se de MAIS UMA associação indevida entre o conceito de "marketing" e o de "propaganda enganosa", erro básico, primário, mas freqüente entre pessoas que acham que entendem do assunto, colocam-se a escrever sobre isso, e acabam pagando este mico - publicar besteiras.
Já mostrei exemplos anteriormente: AQUI, AQUI, AQUI, AQUI e também AQUI.

Estas pessoas prestam um desserviço ao país, pois não se dão conta de que muita gente pode acabar acreditando nas besteiras que elas escrevem !!!!
Como resultado, temos profissionais que acreditam estarem preparados para o mercado de trabalho - quando, na verdade, estão mal-informados.
E não por descaso ou preguiça, mas porque simplesmente acreditaram numa revista como RI, Exame ou quetais.

Estas publicações, aliás, deveriam ser mais rigorosas, filtrando petardos de "iguinorânssia" desta natureza....

11 de janeiro de 2009

Petardos de "iguinorânssia"

O destino é cruel.
Particularmente comigo.

Não pretendia retomar este assunto tão cedo, mas ontem tive que buscar alguns artigos sobre "sustentabilidade", para ajudar minha orientanda (Eliana).
E sempre que busco textos sobre este assunto, acabo me deparando com verdadeiros petardos de "iguinorânssia".

O primeiro é ESTE AQUI.
Se formos acreditar no que está escrito logo na primeira página, a autora tem mestrado. Para uma pessoa com pós-graduação completa, escrever tão mal é uma vergonha. Ainda que desconsiderássemos a falta de estilo, o pior mesmo é cometer tantos e tão graves erros de português.
Ainda na primeira página, o arquivo dá a entender que o trabalho foi premiado no concurso do Ethos. Porém, no site do Prêmio Ethos (http://www.premioethosvalor.org.br/), o trabalho citado no categoria de pós-graduação, na 5a edição do prêmio, é outro.
Não sei se a autora mentiu, ou se houve algum erro. Mas isso é o menos importante.

Ao ler o artigo propriamente dito, é fácil perceber que a autora não apresenta nenhuma definição para os principais conceitos, e infesta o texto com achismos e mais achismos.
Uma verdadeira lástima.
Só para ficar em um exemplo, veja o último parágrafo da página 5: um monte de afirmações taxativas, mas NENHUMA fonte. A ruindade já começa no título, que é redundante e não esclarece nada - parece ter sido redigido pelo meu priminho de 4 anos.

Vou "pescar" um trecho do artigo que me fez rir:
Hoje, tornou-se bastante comum o uso das ferramentas tradicionais de marketing pelas empresas, principalmente, quando possuem concorrentes. O consumidor, por sua vez, passa a ter variadas marcas de mesmo conteúdo em sua mente, sejam eles de valor racional (composição, qualidade, preço), ou subjetivos de signos e significados (beleza, embalagem estética, o melhor, traz felicidade). Assim, apenas ter o maior conjunto de ofertas dentro das tradicionais ferramentas de marketing não é mais diferencial.
Com a mudança do mercado e a ampliação de ofertas, o cliente não é mais fiel a uma única marca, principalmente se ela não demonstrar uma quantidade maior de valores que os já tradicionais. Como lembra Ottman (1997) os indivíduos estão agindo de acordo com seus valores quando exercem o poder de suas decisões de compra. Tudo isso tem levado as empresas a repensarem seus processos e suas filosofias, sob pena de perder mercado e capital.
Vou deixar de lado os erros de redação, e tratar apenas dos erros conceituais - que, obviamente, levam a conclusões equivocadas.
A afirmação "apenas ter o maior conjunto de ofertas dentro das tradicionais ferramentas de marketing não é mais diferencial" é ridícula - e meus alunos sabem disso. Sempre discuto isso depois de vermos o filme do Porter, que trata de estratégia.....
É muito simples: esta afirmação (que, além de tudo, NÃO é acompanhada de nenhuma fonte de referência, o que, por si só, basta para invalidá-la) pode ser verdadeira para alguns mercados/setores, mas para outros, não.
Isso é tão óbvio, tão ridiculamente básico !
Mas quem lê o texto e não se dá conta disso, pode ser levado a conclusões equivocadas.....
Aliás, ler este texto já é uma decisão equivocada, de tão ruim que ele é....!!!!

A pobre autora deste petardo prossegue seu deplorável textículo misturando conceitos.
E, pior, ignora debilmente a função da metodologia de trabalhos científicos.
Ela faz uma afirmação, mas não oferece NENHUMA comprovação. Apenas um exemplo do achismo:
Cresce, a cada dia, o número das empresas que exploram suas posturas ambientalmente corretas em comunicações institucionais, como forma de diferenciação no mercado. Esse novo comportamento é incentivado por veículos de comunicação, associações, conselhos e institutos, que criam prêmios, selos e certificados como forma de incentivar empresas a buscar uma atuação que leve em conta a conservação dos recursos naturais com que se relacionam no seu processo de produção.
Por acaso a autora fez algum tipo de levantamento amostral que indique o crescimento do número de empresas que exploram suas posturas ambientalmente corretas ?
Cadê o levantamento ?
Qual foi a metodologia adotada na referida pesquisa ?
O leitor deste petardo fica sem saber.
Será que o achismo da autora é suficiente ?

Mais um achismo:
As empresas estão buscando adotar posturas social e ambientalmente corretas (FIGURA 2) acreditando que essa comunicação de marketing venha a agregar valor diferencial para suas marcas.
Quais empresas ?
Qual a fonte da afirmação ?
Quais países foram pesquisados ?
Quais tamanhos de empresas ?
Quais setores econômicos ?
O coitado do leitor fica sem saber de nada disso.....

Será que a Joana d'Arc Bicalho Félix nunca cursou uma disciplina de "metodologia de pesquisa" na Universidade Católica de Brasília ?
Será que ela jamais leu um trechinho de qualquer bom livro do assunto ?
Teria ela obtido seu mestrado sem ter feito uma dissertação que seguisse às normas de métodos de pesquisa ?

Nunca saberemos.
Em tempo: a mesma autora teve a falta de bom senso, a cara de pau, a petulância de escrever outro artigo (http://www.empresaresponsavel.com/links/UNIVERSITAS%20Ganhos%20de%20Mercado%20COM%20-%2026.05.04.doc), que é igualmente tão mal-escrito e oco quanto o primeiro.

Vamos, agora, ao segundo petardo: ESTE AQUI.
Perceba, caro leitor, que se trata de uma dissertação de mestrado.
O autor poderia (aliás, DEVERIA) ter tomado o cuidado de fazer uma revisão do texto, de forma a evitar trechos como "Os autores mencionados, conceituam o termo divulgação, como veiculação de informação." (página 20).
Ao ler esta frase, lembrei de alguns dos meus alunos de primeiro ano da graduação, que, freqüentemente, separam verbo e sujeito com vírgula.....

Mas, seguindo com o enterro, vamos ao conteúdo per se.

Quando enviei esta dissertação para a Eliana, fiz a seguinte recomendação a ela:
Se você resolver resenhá-lo, POR FAVOR, não cometa os mesmos erros, especialmente de concordância !!!!!
E, por obséquio, não coloque palavras nem afirmações nas obras de autores clássicos (o cara diz, no finalzinho da página 77, que o Theodore Levitt apontava o aumento da consciência do consumidor para com o meio ambiente, mas o Levitt nunca escreveu isso !!!!!!), ok ?!
Pois é.....
Theodore Levitt, coitado, nem sabia que escrevera sobre "responsabilidade social" e "marketing social" em 1961 (quando publicou o artigo miopia em marketing).
Para um mestrando, NADA justifica distorcer afirmações de um autor, qualquer que seja este autor.
Porém, pior ainda é distorcer as afirmações de um autor/artigo clássico, como é o do Levitt.
Mais grave é distorcer as afirmações a ponto de torná-las a antítese da essência do texto original !!!!!

Vejamos aqui neste trecho (página 43 da dissertação):
No término da 2ª Guerra, as empresas se transnacionalizavam e passavam a adotar novos processos produtivos, desenvolvidos graças à tecnologia gerada durante o conflito.
Intensificava-se a busca de processos que pudessem suportar uma escala mundial, fazendo emergir grandes corporações multinacionais, industriais, estatais e financeiras. O lema era a máxima produção e o custo mínimo. Essa parecia ser a finalidade da atividade humana.
As empresas nesse período: “fixavam-se no próprio espelho, em vez de observar pela janela o que se passava do lado de fora”. Com esta afirmação, Levitt (1988, p.5) retrata bem a crescente desumanização resultante dessas estruturas organizacionais agigantadas.
Em primeiro lugar, o "lema" de máxima produção com custo mínimo vinha há tempos, e NÃO após a Segunda Guerra. Frederick Taylor, nos idos de 1900, já propunha este "lema". O autor deste petardo de "iguinorânssia" certamente não pesquisou o suficiente para saber disso.

Pior do que esta afirmação ridícula, contudo, é usar um trecho supostamente atribuído ao Levitt para ilustrar a equivocada idéia do autor da dissertação - referente à desumanização das organizações.
O artigo do Levitt trata da miopia das empresas em relação à observação dos anseios dos consumidores, e não tem NADA a ver com desumanização das empresas e "responsabilidade social". Porém, a citação está justamente sob a rubrica "2.2. A responsabilidade social".

Mais do que apenas um errinho de digitação ou congênere, isso é a mais grave desinformação absoluta ou, então, pura má-fé.

Ainda tenho um terceiro petardo da "iguinorânssia" para comentar, mas este fica para uma próxima vez......

Pois é, caro leitor...
Cada vez que me meto a ler qualquer coisa sobre sustentabilidade, mais e mais sou levado a crer que o assunto é INSUSTENTÁVEL.
Quanta ruindade !!!!!!!!!!

13 de dezembro de 2008

Sobre as empresas sustentáveis

Recebi um e-mail, nesta semana, do Rafael Menshhein, com uma definição BRILHANTE sobre as empresas sustentáveis. Como ele me autorizou, reproduzo-a:
Empresa sustentável é aquela que vende seus produtos ou serviços, pega o dinheiro e paga suas despesas, impostos e afins, entrega a participação dos acionistas e investe parte dos lucros para continuar viva no mercado.
Mas como as pessoas não enxergam por este lado há uma crença de elas não se sustentem, pois o lucro é proibido e todos os anjinhos que vão diariamente para as empresas não recebem salários e benefícios, já que isto pode ser um lucro sobre a mão-de-obra que oferecem.
Nem preciso dizer que concordo INTEIRAMENTE com o Rafael, né ?!
Ainda mais depois de ler a seguinte matéria no Valor Econômico do último dia 11/12:
A crise de confiança do mercado bateu forte no terceiro setor. A Petrobras, maior empresa brasileira e maior patrocinadora de projetos culturais, sociais e ambientais do país - R$ 580 milhões em contribuições voluntárias segundo informações da companhia - e o Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social, a grande referência na área, já não freqüentam juntos as mesmas conferências e debates sobre sustentabilidade na gestão corporativa.

"De 2007 para cá a relação foi ficando crescentemente tensa em função da postura cada vez mais agressiva por parte do conselho deliberativo do Ethos, Oded Grajew", diz Luís Fernando Nery, gerente de responsabilidade social da empresa, que anunciou dia 2 seu desligamento do Ethos. "A crítica cresceu e chegou a um patamar que ultrapassou os critérios mínimos de bom-senso e de civilidade" afirma. "Pelo menos nesta gestão não vejo condição de um posicionamento socialmente responsável da empresa", diz Ricardo Young, presidente do Ethos. Para ele, a postura da estatal reflete "uma arrogância típica da ditadura".

O conflito nasceu e cresceu em torno de uma questão que se arrasta desde 2002, em uma seqüência de vaivéns e adiamentos: a regulamentação do teor de enxofre no diesel que abastece os veículos brasileiros. Há pouco mais de um ano, entidades da sociedade civil intensificaram as pressões para a entrada em vigor da resolução 315 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), que previa que a partir de janeiro de 2009 as emissões de enxofre do diesel teriam que baixar de 2000 partes por milhão (quando vendido em áreas urbanas) e 500 ppm (nas áreas metropolitanas) para 50 ppm.

Na madrugada do dia 30 de outubro, porém, a entrada em vigor da resolução foi postergada mais uma vez. Um acordo firmado na presença do Ministério Público Federal, entre governo federal, representantes da Petrobras, Agência Nacional de Petróleo, Anfavea (a associação que reúne as montadoras), Secretaria do Meio Ambiente de São Paulo e outros representantes da indústria automobilística prevê que a adoção ampla das normas ocorrerá em 2014.

A partir daí, foi tudo muito rápido. No dia 25 de novembro a BM&FBovespa anunciou que a Petrobras e outras cinco empresas haviam sido excluídas do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE), que avalia as companhias com melhores desempenhos social e ambiental. O jornal "O Globo" havia antecipado a decisão do conselho do ISE no dia anterior.

No momento do comunicado, o site da internet do Movimento Nossa São Paulo, que tem Grajew como um de seus idealizadores, veiculava a notícia, atribuindo ao posicionamento da empresa em relação ao diesel grande peso na decisão. Uma semana depois, a Petrobras publicou uma nota pedindo seu desligamento do Ethos, por considerar que seria "alvo de uma campanha articulada com o objetivo de atingir a imagem da companhia e questionar a seriedade e eficiência de sua administração".

"Como freqüentar uma associação que não tem com seu associado uma postura ética?", questiona Nery. "Não fomos nós que quebramos o sigilo", garante Oded. "Isso é 0,0001 da importância do assunto, que é muito mais grave, uma questão de saúde pública", afirma ele. "O ISE tem um conselho de alto nível e ninguém ia tirar a Petrobras por capricho", afirma.

O Conselho do ISE é composto pela Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (Abrapp), Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais (Apimec), Associação Nacional dos Bancos de Investimento (Anbid), Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social, atualmente representado por Young, International Finance Corporation (IFC), Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), além da BM&FBovespa e do Ministério do Meio Ambiente. Tanto a BM&FBovespa quanto a Anfavea não se manifestam sobre a questão, segundo suas assessorias.

A Petrobras considera que a questão é política. "Do ponto de vista ético e legal não há o que discutir. Eles repetem equívocos", afirma Nery. Na interpretação da companhia, o acordo assinado no fim de outubro encerra a discussão legal. E ele diz que em um cronograma que vai até 2010, a Petrobras vai investir no total R$ 4 bilhões para a construção de 36 Unidades de Hidrotratamento (HDT) para a produção de diesel e melhoria da qualidade do produto

"Para esse processo são necessários investimentos nos postos, montadoras, Petrobras, órgãos de fiscalização. Há atrasos por várias instituições", explica Nery. "Vamos supor que não haja resolução nenhuma", contrapõe Oded. "Na Europa e nos países desenvolvidos, o diesel é de 10 ppm a 15 ppm. No Brasil, 75% são de 2000 ppm e 25% de 500 ppm. Empresa responsável deveria no mínimo tentar se igualar em termos de enxofre. A Petrobras deveria fazer o esforço", argumenta.

"A questão não é eles terem um dilema, mas, sim, como lidam com o dilema", diz Young. "A Petrobras, a princípio, colocou o movimento do diesel como político e não como questão de saúde pública", diz. O Ethos, afirma, ao contrário dos outros movimentos, apostou que a Petrobras investiria em um processo novo para o diesel e a energia e assumiria a vanguarda.

"O que é assumir a liderança? É reconhecer que o problema existe, que é difícil resolver, e depois examinar as possíveis soluções", afirma Young. "Não há empresa no mundo 100% gerida por processos de responsabilidade social e ambiental, isso é um processo de construção", avalia Nery. "Tem coisas para melhorar? Tem. Pode fazer um produto melhor? Pode", complementa. Esse parece ser hoje o único ponto de concordância entre a estatal e a entidade. Um sinal de que ser socialmente responsável é uma tarefa cada vez mais complexa.
Como sempre, os grifos em negrito são meus.
E, mais uma vez, fica claro que NINGUÉM sabe o que diabos significa a tal "Responsabilidade Social Corporativa" ou qualquer sinônimo vazio que o valha.

Afinal........

Será que a Petrobrás deixou de ser "socialmente responsável" única e exclusivamente graças à questão do enxofre no diesel ?
Será que o Instituto Ethos não errou ao classificar a Petrobrás como "ambientalmente responsável", lá atrás ?
Será que só agora é que o Instituto Ethos descobriu que a Petrobrás não é "socialmente responsável" ? Ninguém percebeu nada até agora ?
Por quanto tempo o Instituto Ethos corroborou a imagem de "ambientalmente responsável" da Petrobrás ? Será que os critérios deles não estavam, afinal, furados ?

Tantas perguntas......... Nenhuma resposta.